segunda-feira, 29 de março de 2010

DE QUEM É A CULPA?

Até onde devem os pais proteger os filhos? Qual é a fronteira entre a protecção, o apoio e o carinho, por um lado, e a inibição do desenvolvimento do sentido de responsabilidade e da autonomia, por outro? Até onde devem os pais ajudar nas tarefas relacionadas com a escola e onde é que essa ajuda passa a ser limitativa do desenvolvimento da tal autonomia e do tal sentido de responsabilidade? Reformulando a pergunta: como podem os pais ajudar eficazmente os filhos?

- Por que não vieste à aula ontem?

- Porque não trouxe material.

- E isso é razão para faltares? E já agora, por que não trazias material?

- A culpa não foi minha! Quem me faz a pasta é o meu pai.

- O teu pai? A um aluno de 6.º ano?

- Pois, de manhã eu tenho sono e ele faz-me a pasta para eu não me atrasar.

- E por que não a fazes de véspera?

- Era só o que faltava. Trabalho tinha eu!

Este é um diálogo real, passado recentemente numa sala de aula de uma escola EB 2.3. O diálogo com o aluno prosseguiu, mas mentalmente a professora reconhecia a 'culpa' do pai. Para mais tarde estava já decidida uma conversa com a directora de turma, pedindo-lhe que marcasse uma entrevista com o encarregado de educação, a fim de analisar a situação.

Acompanhar a vida escolar dos filhos e procurar desenvolver hábitos de estudo e de organização é muito importante. Diariamente os alunos precisam de fazer revisões rápidas da matéria dada nesse dia e os trabalhos de casa. Terminado este trabalho, há que preparar o material para o dia seguinte. Só assim se pode verificar se não falta nada. Só assim vai ser possível procurar algo que não se encontra no sítio esperado. Só assim vai ser possível ter tempo para anotar a leitura do contador da luz, pedida pela professora de Matemática, procurar as revistas coloridas, pedidas pela professora de Educação Visual, ou pôr na pasta a folha de teste necessária para Português.

Nem sempre é fácil convencer um jovem, especialmente um adolescente, a adiar um pouco o jogo de computador, para fazer tarefas menos agradáveis, como a preparação da pasta. Mas há que saber resistir às acusações de sermos os piores pais do mundo e os únicos que escravizam tão indecentemente os seus rebentos. Afinal, preparar uma pasta não é uma tarefa tão demorada assim. Sê-lo-á, se surgirem imprevistos; e esses não poderão ser resolvidos, se o autocarro escolar estiver quase a chegar à paragem ou se a campainha da escola estivar a preparar-se para dar o "toque de alvorada".

De quem é a culpa da falta do menino? É ele que cumpre as suas tarefas? Costuma ser responsabilizado pelas suas falhas e ter que assumir as consequências dos seus actos ou da falta deles? Como professora e como mãe, sei o quanto é difícil, por vezes, encontrar firmeza para levar os jovens a cumprir determinadas regras. Mas sei também o quanto isso é importante para os nossos filhos aprenderem a ser autónomos e responsáveis.

Autora: Armanda Zenhas in educare



3 comentários :

Céu Vieira disse...

Minha querida amiga Mariana, um beijinho grande para si.
Aqui está um texto muito problemático nos dias de hoje!
Como podem as crianças ser responsáveis se os próprios pais não o são? Como podem as crianças ser disciplinadas, se os próprios pais não têm disciplina? Como podem as crianças ter formação e valores, se os pais não os têm!!!!
É um problema muito grande para toda a sociedade, porque se inverteram os papéis e o pior de tudo é que é a coberto da lei. Onde é que já se viu, os filhos mandarem e abusarem dos pais e dos educadores em geral sem estes poderem exercer uma disciplina um pouco mais rígida? Não entendo!!!!
Não sei onde esta geração e as gerações vindouras vão parar! As crianças, têm de começar a ser disciplinadas, logo de pequeninas, "porque é de pequenino que se torce o pepino", mas com amor, diálogo e acima de tudo com exemplo... claro, que se for preciso umas palmadas no rabo, não lhes faz mal nenhum. Não vamos inverter os papéis, pais, são pais, são autoridade, não são "amigos" como agora se usa dizer!!!! A Mariana entende, não entende?! Claro que são amigos, mas não aqueles amigos para quem eles falam de qualquer maneira! É na família, no lar que começa tudo. Os professores e outros educadores são ajudadores dos pais. Devem trabalhar em colaboração, para o bom desenvolvimento das crianças que serão os adultos de amanhã. Se estas 2 entidades falham, não sei onde isto vai parar.
Minha querida amiga, eu teria tanto para dizer, mas não vale a pena senão não saía daqui hoje. Já disse naquela postagem do "bullying" lembra-se?
Sei que é preciso ter muita formação e amor à profissão para se ser professor hoje. Também sei que por vezes os pais dão uma educação em casa e as crianças apanham outra lá fora, porque os vícios e as coisas más proliferam por todo o lado! Enfim minha querida amiga, resta-me dar os parabéns à maior parte dos profissionais do ensino, por ainda terem coragem, de mesmo assim fazerem o seu curso e se lançarem nesta aventura complicada, que é, ser hoje PROFESSOR/A.
O meu bem haja a todos/as, muita força, muita coragem e muito ânimo é o que vos desejo. Dou os meus parabéns à autora deste texto que a Mariana hoje publicou. Gostei muito.
E para si minha linda Professora Mariana, eu desejo o melhor do mundo, com muito carinho e admiração. Um beijinho e um abraço bem apertadinho.

Céu Vieira disse...

Minha querida Mariana, reli este texto e o meu comentário também! Com tanta conversa, esqueci-me de lhe agradecer a partilha do mesmo. Obrigada minha amiga pela partilha deste texto tão elucidativo e real.
Desculpe o lapso, está bem?? Não foi por mal! É que este é um tema que mexe comigo e quando começo a falar disto, nunca mais me calo!... eheheheh
Um grande beijinho minha querida amiga Mariana

Ana Paula disse...

Querida amiguinha boa noite!
Ainda não tinha lido este texto tão pertinente.
Como os tempos mudaram!!!
Felizmente a minha filhota sempre resolveu tudo sozinha e foi uma aluna aplicadíssima, aos 23 anos já trabalhava com uma licenciatura e nunca foi preciso levá-la ou buscá-la à escola nem ajudá-la nos "deveres" escolares.
Tive muita sorte, é à conclusão que chego! Mas nem todos os jovens são iguais e tive casos identicos na família, e que não vou aqui identificar, porque não seria correcto da minha parte.
Não é fácil ser pai ou mãe, quando se tem o azar de ter filhos assim que não se interessam por aprenderem nem organizados, assim como o azar que tem os professores, por lhe "calharem na sorte" alunos assim.
Haja paciencia não é amiga Mariana?
Beijinhos muito grandes,
Ana Paula