sexta-feira, 19 de março de 2010

QUANDO A CRIANÇA TEM UM AMIGO IMAGINÁRIO

As crianças que criam amigos imaginários não têm qualquer problema em distinguir a fantasia da realidade, simplesmente brincam de uma forma mais imaginativa do que as outras crianças.


Muitas crianças entre os 3 e os 10 anos têm um ou vários amigos imaginários, sendo comum os pais encontrarem os filhos a falar e a brincar sozinhos como se estivessem acompanhados. Nesta idade, as crianças vivem uma fase da vida que se apresenta cheia de encantos. Todos os dias nos surpreendem com novas conquistas, novas proezas. E é também a idade da chegada dos amigos imaginários.

Normalmente os pais acham que apenas os filhos únicos têm o "amigo invisível" ou "imaginário", mas isso é um mito. As crianças, quando brincam sozinhas, gostam de imaginar um amigo invisível, e para isso falam com ele, riem e até chegam a ficar zangadas! Frequentemente estes amigos têm nomes verdadeiros e assumem uma grande importância na vida da criança.

Muitos pais já devem ter sido confrontados com a obrigação de mudar de cadeira à mesa, porque naquele lugar se vai sentar o Joãozinho, um amigo imaginário do seu filho. Outras crianças interagem animadamente com um objecto como, por exemplo, a almofada que usaram quando eram bebés, ou mesmo uma fralda ou um cobertor, são as brincadeiras do "faz-de-conta". Elas também ajudam a antecipar os acontecimentos, por exemplo, brincar ao "ir dormir" para conseguirem dormir bem, brincarem de "papá e mamã" para depois elaborarem a vida familiar, a sexualidade e assim por diante.

Estes amigos também podem ter um papel importante a um nível mais subconsciente: servem para exprimir desejos (a criança quer algo, mas atribui essa vontade ao amigo imaginário), "expiar" a culpa (foi o "amigo" que partiu a jarra, não a criança) ou deslocar o medo (é o "amigo" que sente medo ao ver um filme assustador, não a criança). Ou seja, em geral, os mais pequenos usam os amigos imaginários como uma ajuda para lidarem melhor com o mundo real.

As crianças que criam amigos imaginários não têm qualquer problema em distinguir a fantasia da realidade, simplesmente brincam de uma forma mais imaginativa do que as outras crianças.

O "fazer de conta" permite à criança sentir-se dona da situação, pois ela é que dá ordens ao amigo invisível, sendo o responsável ou o chefe: ela pode ensinar, falar, mandar nos seus amigos imaginários de uma maneira impensável, em relação aos seus amigos ou aos membros da sua família.

Há vários factores que podem influenciar o aparecimento destes "amigos imaginários". Eles podem aparecer quando a criança passa por momentos de stress ou de ansiedade, como, por exemplo, quando um amigo muda de escola, falecimento de um familiar, separação dos pais...

Numa situação onde a criança sinta saudade de alguém querido, poderá substituí-lo, durante algum tempo, por um amigo imaginário, que contribuirá para que a angústia da separação não seja tão brusca e traumática.

Estes amigos também ajudam a criança a lidar com a solidão. O "amigo", ou um objecto de conforto, ajuda-a a fazer face aos seus medos, que são as situações que a angustiam, como o escuro, a solidão e o abandono. Nessas situações, este amigo torna-se uma companhia, preenchendo um pouco o vazio que se instala na sua vida, reduzindo a ansiedade. Assim, pode fazer com que não perca o controlo, uma vez que vai conversando com o amigo e ouvindo a sua própria voz, a qual, entre outras coisas, o acalma.

Os amigos imaginários podem fazer uma grande companhia às crianças mas também podem ajudar no desenvolvimento da linguagem. Alguns estudos indicam que estas crianças acabam por desenvolver uma linguagem mais fluente, vêem menos televisão e revelam maior curiosidade, entusiasmo e persistência nas brincadeiras.

Estudos que compararam crianças com e sem amigos imaginários chegaram à conclusão que os primeiros contavam histórias fictícias e reais com mais pormenores. Esta capacidade para contar histórias pode ser indicador de uma futura capacidade de leitura e, por essa razão, as diferenças encontradas nestes estudos são importantes indicadores de um futuro desempenho escolar positivo.

Por isso, se o seu filho tem um amigo imaginário não se preocupe, porque não tem nenhum problema, é apenas uma criança criativa.

Orientações para os pais

  • Não dar muita importância a esta situação. Caso persista até à pré-adolescência, recomenda-se a consulta de um profissional de saúde.
  • Comprar brinquedos e materiais versáteis, que possam ser usados de maneiras variadas. Proporcionar-lhes material para desenvolverem as suas fantasias. Por exemplo, quando brincam "de cozinhar" ou de ser o "dono de um mercado", precisam de ter sacos e algumas caixas de comida vazias.
  • Encorajá-los a brincar com plasticinas, argila e areia. Estes materiais maleáveis têm um efeito calmante. As crianças podem usá-los todos os dias, de modo diferente, para criarem e controlarem as suas brincadeiras de "faz-de-conta".
  • Não controlar as brincadeiras, deixar que sejam crianças. Não insistir em intervir nas brincadeiras das construções infantis.
  • Não comprar muitos brinquedos. Comprá-los na presença da criança, perguntando-lhe do que ela gosta. Quando as crianças têm de procurar objectos para as suas brincadeiras a imaginação voa. Compre brinquedos em datas especiais, como no aniversário, no dia da criança ou no Natal. O abuso na compra gera consumismo e o valor educativo do brinquedo perde o efeito.
  • Recorrer à ajuda de um psicólogo quando a criança só quer estar sozinha com o seu amigo imaginário e evita o contacto com os outros, ou se as conversas com o amigo imaginário são em tom negativo, denotando baixa auto-estima ou tristeza.

Clara Machado, com a colaboração de Albina Silva, pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga

in educare

1 comentários :

Ana Paula disse...

O meu Guga que fez 4 anitos no Domingo está nesta etapa da vida, brinca muito sozinho e tem uma imaginação fantástica. A mãe dele também teve e cheguei a encontrá-la no quarto a fazer de professora. Um belo dia estive a escutar as conversas atrás da porta e fartei-me de rir sozinha, ela fazia de professora e de aluna ao mesmo tempo, lá a deixei sem a interromper porque me deliciei com o diálogo que ouvi. Ainda hoje falamos disso:-)
Sempre pensei que ela gostasse de leccionar um dia, mas não, quando chegou a altura optou por uma profissão muito diferente:-)
Gosto muito destes textos tão elucidativos que todos os pais e avós deviam ler, uma vez que são também educadores.
Jinhos doces,
Ana Paula