segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Crianças em risco: afectos e protecção

Protecção de crianças e jovens em risco, despiste de factores familiares prejudiciais ao desenvolvimento afectivo e físico e a problemática da vinculação afectiva foram alguns dos temas que encerraram um curso de formação parental promovido em parceria entre a CrescerSer - Associação Portuguesa para o Direito dos Menores e da Família e o Serviço de Pediatria do Hospital São João, no Porto.

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A vinculação é a origem do afecto. Trata-se de uma ligação particular a uma figura próxima que cuida da criança. Desenvolve-se, principalmente, entre os 6 meses e os 3 anos e serve de base a todo o desenvolvimento. Logo, as crianças que são abandonadas ou perdem as figuras a quem estão vinculadas, dentro desta fase, podem ter uma paragem, ou um certo atraso, no desenvolvimento emocional e da linguagem. Mas podem surgir outros sintomas: depressão, apatia. E, mais tarde: ansiedade perante as perdas.

O medo de voltar a perder as pessoas que encontra origina que a criança não estabeleça laços profundos para não voltar a sofrer. A criança torna-se mais superficial com as pessoas que a rodeiam. E até mais materialista. Vai achar que gostar é satisfazerem-lhe as vontades. Estabelece então relações de "tudo ou nada". Do género "ou fazes tudo o que eu quero e gostas de mim, ou se me contrarias és meu inimigo". E são este tipo de relações perigosas que podem levar a comportamentos de risco.

Todas estas questões foram abordadas por Alda Mira Coelho, pedopsiquiatra, no Serviço de Pediatria do Hospital São João, durante uma sessão de informação sobre "Crianças em risco" que decorreu no passado sábado. Foi a última de um conjunto de acções de formação parental, promovidas em parceria entre a associação Crescer Ser e aquela instituição hospitalar do Porto.

Para Alda Mira Coelho, são as crianças e jovens que passaram por muitas perdas afectivas, tiveram vinculações perturbadas ou disfuncionais, e sofreram muitas rupturas acabando por não estabelecer um vínculo estável e seguro "que, mais tarde, podem com mais facilidade entregar-se a comportamentos de risco". Desenvolvem relações de "tudo ou nada", não aceitam as frustrações facilmente e revoltam-se de forma impulsiva, podendo até tornar-se anti-sociais, refere a pedopsiquiatra. "Não quer dizer que isto aconteça sempre assim, mas as perturbações de vinculação podem ser factores de risco bastante grandes que levem mais tarde a comportamentos anti-sociais."

Estas "rupturas afectivas", constata diariamente no serviço de Pediatria, "deixam marcas na história pessoal destas crianças". "Daí a nossa preocupação em tentar evitar que elas sejam feitas." Uma dessas tentativas está no evitar a institucionalização "sempre que possível". Mas se não for: "É preciso tentar uma reparação dessas perdas afectivas, o mais precocemente possível, isto é, promovendo relações afectivas substitutas para aquela criança, que lhe dêem a estabilidade necessária para crescer segura e ser capaz de desenvolver a capacidade de amar e efectuar as etapas de crescimento sem cair em comportamentos de risco."

Sem essa reparação, ou essa "segurança nas relações afectivas", "as crianças não são completamente autónomas, acabam por tornar-se dependentes de outras pessoas, com relações doentias e patológicas, ou dependentes de substâncias, como as drogas", conclui.

O que é estar em risco?
"As situações de risco mais habituais são aquelas em que a criança é vítima de maus tratos físicos, psicológicos ou de negligência grave", responde Alda Mira Coelho. Bater é a forma mais visível deste triângulo de risco. Menos visíveis são a "crítica permanente, a falta de carinho e protecção, a humilhação pública, que também constituem maus tratos e podem perturbar o desenvolvimento da criança", alerta. "A negligência grave acontece quando os pais não são capazes de dar à criança os cuidados de saúde, higiene, alimentação que precisa." Os motivos para esta incapacidade podem ser vários: perturbações psiquiátricas, depressões graves, abuso de álcool, drogas. Há ainda os casos de abandono, em que as crianças são deixadas nos hospitais ou na rua.

"O abuso sexual intrafamiliar, na maioria dos casos, também é frequente entre as situações de risco", salienta Alda Mira Coelho, explicando que "muitas vezes, a criança, quando é pequena, nem se apercebe do que lhe está a acontecer, outras vezes sente-se ameaçada pelo abusador que a impede assim de contar, ou então a própria criança tem uma ligação afectiva ao abusador e não quer contar para não criar problemas dentro da família". "Isto é um peso muito grande para as crianças e leva-as a ter sentimentos de culpa muito marcados. Tudo isto são situações em que a criança está em risco e deve ser protegida."


Sinais de alarme

"Não é obrigatório que as crianças com estes sinais estejam em risco, mas quando se verificam em conjunto, devemos, pelo menos, perceber que alguma coisa não está bem e tentar investigar o que se passa", alerta Alda Mira Coelho. Súbita perda de rendimento escolar, dificuldade de concentração, instabilidade emocional (ora chora, ora ri), tristeza, agressividade, alienação, marcas frequentes no corpo, "são sinais que têm de fazer pensar quem os vê".

A estes juntam-se outros: manifestações de insegurança e inibição; dificuldades de relacionamento; ansiedade ligada a estados de vigilância, "como se a criança tivesse medo de alguma coisa, de se expor ou de que alguém lhe faça mal"; falta de vontade ou medo em voltar para casa; apresentação de comportamentos erotizados. "Podem-nos indicar que a criança está a ser sujeita ou a presenciar situações que não são próprias para a sua idade."

Sintomas de carência excessiva também devem alertar educadores e professores. "Uma criança que está constantemente a agarrar-se a toda a gente, de modo indiferencial e a pedir mimos e abraços a todas as pessoas que lhe aparecem, deve fazer-nos pensar que algo não está bem com ela."

Como orientar? É a questão que se coloca depois de sinalizada a situação de risco. Alda Mira Coelho esclarece: "Situações onde existem fortes suspeitas de que alguma coisa não está bem devem ser comunicadas às Comissões de Protecção de Crianças e Jovens." "Mas há que ter muito cuidado, antes de levantar essas suspeitas", avisa a profissional de pediatria, "todos os factos têm de ser analisados com rigor".

Alda Mira Coelho defende que "uma boa maneira de trabalhar estas situações seria através da nomeação de um gestor de caso para acompanhar cada família que esteja em risco, ou seja, sinalizada". Mas isto pode não ser tão linear. "Obviamente, não pode haver um gestor por família, por falta de recursos, mas também não pode haver um com cem famílias, porque assim o trabalho não pode ser feito da maneira adequada", critica.

Na sua opinião, "o ideal era que o gestor de caso não tivesse mais de dez situações, para poder transformar-se numa espécie de vínculo para a família e a criança". A pedopsiquiatra insistiu ainda na importância da formação destes técnicos, nas áreas da mediação familiar e da comunicação. "Sem preparação, o gestor de caso não vai conseguir ganhar a criança nem trabalhar a família para tentar uma nova vinculação. A família precisa de sentir que o gestor de caso está ali para a apoiar e não para lhe retirar a criança e a culpabilizar." Até porque, nas situações em que se verifique que a institucionalização é a única alternativa, o gestor de caso é quem deverá dar as devidas explicações à família e à criança.

Institucionalização

Trata-se de um perfil comum às crianças e jovens institucionalizados. "Passaram quase sempre por perdas, assistiram a coisas que não deviam em relação às pessoas de quem gostavam, não tiveram laços afectivos seguros ou controlados, ou tiveram, mas perderam-nos porque foram retiradas à sua família, por factores de risco, então são vulneráveis, carentes e muito revoltadas".

E se a tal ruptura for prolongada, sem que se faça a tal reparação afectiva, de que Alda Mira Coelho falava, ou "se houver sucessiva ruptura, como passar de uma família para um colégio, daí para uma instituição e depois para uma família de acolhimento, isto só vai levar a que a criança fique ainda mais insegura e incapaz de estabelecer laços". Por isso, uma das preocupações de quem trabalha no sistema de protecção deve ser evitar que todas estas rupturas aconteçam.

O impacto da institucionalização deixa sintomas nas crianças. Sobretudo naquelas que passam longos períodos nas instituições. Alda Mira Coelho traça um quadro geral das problemáticas mais comuns: "Ansiedade difusa, ou seja, medo sem saber de quê, nem porquê, podendo reflectir-se em alterações de sono, pesadelos, perdas de controlo da urina ou das fezes durante a noite; estagnação no desenvolvimento da linguagem e dos pensamentos abstractos, o que se vai reflectir no aproveitamento escolar; falta de autocontrolar, são muito instáveis e desorganizadas, com um comportamento caótico." E "como têm muitas vezes um desenvolvimento emocional pobre, e dificuldade em reflectir e expressar as suas emoções, estas crianças falam mais através do corpo. As queixas somáticas são frequentes, como as dores de barriga, de cabeça...", conclui.

Já nos adolescentes, "são frequentes as alterações de comportamento, a agressividade e o furto, ligado à carência afectiva precoce". Alda Mira Coelho explica este comportamento: "É como se o jovem tivesse um vazio lá dentro que não consegue preencher e por isso tem de ir buscar coisas que lhe dão prazer." A busca pela satisfação pode ainda gerar um apetite excessivo por guloseimas, ou a sensação de estar sempre com fome. "As crianças que tiveram perdas afectivas precocemente estão constantemente a pedir guloseimas ou prendas, ou sempre a pedir coisas, porque estão permanentemente insatisfeitas."

Mais tarde, salienta Alda Mira Coelho, "se não houver reparação afectiva nem modelos adequados que ajudem estas crianças a recuperar, este tipo de comportamentos pode levá-las a estabelecer relações superficiais, muitas vezes com uma ausência de culpabilidade, em que se preocupam apenas em obter o prazer imediato e que pode levá-las a situações de risco, nomeadamente delinquentes".

Alguns procedimentos por parte dos envolvidos na protecção podem minimizar os danos emocionais nas crianças e jovens. Segundo Alda Mira Coelho, isto passa por "evitar retirar a criança à família de forma violenta ou traumática, sendo já este um último recurso; não dizer mal dos progenitores, protegendo a imagem que elas têm; nunca dizer à criança que os pais a abandonaram, até porque muitas vezes não foi mesmo um abandono, mas circunstâncias da vida ou factores de risco que originaram a que tivessem de ser protegidas; desde que haja garantias de segurança para a criança, manter os contactos com os pais ou familiares; nunca culpabilizar a criança pela sua situação; e, para que a criança institucionalizada consiga estabelecer alguns vínculos, deve-se evitar a mudança de espaços".

Ao longo de 7 meses, o projecto de formação de famílias "Ajudar a Educar" levou a várias juntas de freguesia da cidade do Porto especialistas em pedopsiquiatria, psicologia, pediatria, obstetrícia e serviço social para fornecer às famílias informações nestas áreas. Alda Mira Coelho, pedopsiquiatra do serviço de Pediatria do Hospital São João, no Porto, e mentora do projecto salienta a importância de formar os pais para lidar com situações que perturbam a sua função de progenitores.

Em retrospectiva, as sessões abordaram o desenvolvimento psicoafectivo e físico da criança; cuidados durante a gestação e planeamento familiar; insucesso escolar, violência e comportamentos de risco na adolescência; comunicação intrafamiliar, equipamentos sociais para problemáticas de risco, e, por último, as problemáticas que podem surgir em crianças institucionalizadas.

"Ao longo de todas as sessões foi dado algum material aos pais, os textos em Word das apresentações realizadas pelos especialistas, com o objectivo de fornecer uma espécie de curso", refere Alda Mira Coelho. Os pais que seguiram todas as sessões tiveram um diploma "para poderem dizer que frequentaram um curso de Educação Parental", acrescenta. "Muitos destes pais são carenciados e esta foi uma forma de os motivar e melhorar a sua auto-estima e a relação com as suas crianças."

No entanto, o nível de participação das famílias nas sessões ficou aquém das expectativas dos organizadores. Ana Moutinho, directora da Casa de Cedofeita, um centro de acolhimento da associação CrescerSer, acredita que a mensagem talvez não tivesse chegado aos destinatários. Ainda assim, a directora salienta a importância de acções deste género. "Não vamos deixar de investir na capacitação das famílias, mas vamos pensar fazê-lo num outro formato."

Autora: Andreia Lobo

in Educare

domingo, 21 de novembro de 2010

Somos o que aprendemos

Frequentemente esquecemo-nos de que nós somos os heróis dos nossos filhos e que eles olham para nós como modelo a seguir; adoptam os nossos comportamentos, os nossos conceitos, os nossos valores.

Quanto mais nos esforçarmos para sermos melhores pessoas, mais eles nos imitarão. E porque uma imagem vale mais do que 1000 palavras, fica aqui a chamada de atenção:

in manual da criança

domingo, 14 de novembro de 2010

O meu filho é diferente...será autista?

As manifestações da doença são notadas quase sempre antes dos 3 anos, geralmente entre os 6 e os 20 meses de idade.


Desde os primeiros tempos de vida, a maioria das crianças são sociáveis e procuram activamente o contacto com os outros: jogam ao "faz-de-conta", brincam com os seus pares, gostam de dar e receber mimos.

No entanto, em certos casos, os pais notam que o seu filho não interage com os outros desta forma. É o que acontece com a criança autista, na qual existe problemas em três domínios: socialização, comunicação e comportamento.

Leo Kanner descreveu esta patologia em 1943 e cerca de um ano mais tarde, um grupo de crianças com características semelhantes foi descrito por Asperger.

Em que idade aparece?
As manifestações da doença são notadas quase sempre antes dos 3 anos, geralmente entre os 6 e os 20 meses de idade.

Tipicamente não existe um período de desenvolvimento normal, embora em cerca de 20% dos casos os pais tenham descrito um desenvolvimento relativamente normal durante um ou dois anos.

É uma doença frequente?
Não. Segundo os estudos mais recentes, para uma população de 10 000 indivíduos há 10 pessoas com autismo. Transpondo para o nosso país, haverá cerca de 10 000 pessoas com esta doença.

O autismo pode ocorrer em qualquer família, independentemente do seu grupo racial, étnico, socio-económico ou cultural.

Sabe-se que é mais frequente no sexo masculino, numa proporção de 4 a 5 rapazes para 1 rapariga.

Quais as causas desta doença?
Foram propostas diversas teorias para tentar explicar o autismo.

Trata-se de uma perturbação biológica, com forte componente genético; contudo, a sua etiologia é desconhecida, parecendo ser multifactorial.

Nas décadas de 40 e 50 acreditava-se que a causa do autismo residia nos problemas de interacção da criança com os pais/família. Hoje sabe-se que esta ligação não tem qualquer fundamento.

A partir dos anos 60, com investigações baseadas em estudos de casos de gémeos e doenças genéticas associadas ao autismo (X frágil, esclerose tuberosa, fenilcetonúria, entre outras), descobriu-se a existência de um factor genético multifactorial e de diversas causas orgânicas relacionadas com a sua origem. Factores pré-natais (como a rubéola materna) e durante o parto (prematuridade, baixo peso ao nascer, infecções graves neonatais) também parecem ter influência no aparecimento das perturbações do espectro do autismo.

Quais as manifestações a que os pais devem estar atentos?
O bebé com autismo apresenta determinadas características diferentes dos outros bebés da sua idade.

Pode mostrar indiferença pelas pessoas e pelo ambiente ou ter medo de objectos. Por vezes tem problemas de alimentação e de sono.

Pode chorar muito sem razão aparente ou, pelo contrário, pode nunca chorar.

Quando começa a gatinhar pode fazer movimentos repetitivos (bater palmas, rodar objectos, mover a cabeça de um lado para o outro).

Ao brincar não utiliza o jogo social nem o jogo de faz-de-conta.

Tem grande dificuldade de interagir com as outras crianças.

Não utiliza os brinquedos na sua função própria: um carro pode servir como objecto de arremesso e uma boneca para desmanchar.

Que outras características têm estas crianças?
Partindo do que se denomina a tríade de perturbações do autismo, com manifestações nos já citados três domínios, podemos agrupar as características:

Domínio social

Parecem viver no seu próprio mundo, desligadas, alheadas, desinteressadas e insensíveis aos outros.

Grande dificuldade em interagir com outras crianças: partilhar, cooperar ou jogar à vez são para eles tarefas muito difíceis.

Seres humanos, animais e objectos poderão ser tratados da mesma forma.

Relativa incapacidade de partilha de alegrias ou procura de ajuda/conforto em situações de stress.

Domínio da comunicação

Evitam o contacto ocular e podem resistir ou mostrar desagrado ao serem pegados ou tocados.

Têm perturbações da linguagem (tanto da compreensão como da expressão), por vezes mesmo uma ausência de linguagem que faz pensar em surdez. Se existe linguagem, o vocabulário é pobre. É frequente não usarem o eu e repetirem de modo estranho, como que em eco, o que acabaram de ouvir (ecolalia).

Problemas na comunicação não-verbal: mantêm-se muito próximas ou muito afastadas dos interlocutores e olham para os lábios em vez de para os olhos durante a comunicação. Fazem um uso muito pobre da mímica facial ou dos gestos.

Domínio do comportamento

Tendem a entregar-se a jogos e rotinas repetitivas, de forma isolada, como por exemplo fazer girar objectos. Têm com frequência, em particular em situações de angústia e excitação, movimentos repetitivos das mãos, dedos, etc. (por exemplo abanar as mãos como a imitar um passarinho).

Grande rigidez do pensamento e comportamento, por vezes com crises de auto e heteroagressividade face às mudanças das rotinas ou do meio que as rodeia ou quando são contrariadas.

Ligações bizarras a certos objectos ou partes destes.

Por vezes são extremamente sensíveis a cheiros, sabores e sensações tácteis.

A hiperactividade é um problema comum.

Em certos casos existem talentos especiais, por exemplo para o cálculo, a música ou o desenho.

Todas as crianças com autismo têm atraso mental?
O défice cognitivo (atraso mental) ocorre em 65-88% dos casos. Algumas destas crianças têm inteligência normal ou até superior, como pode acontecer na síndrome de Asperger.

Há tratamento para esta doença?
É muito importante que a criança seja orientada o mais precocemente possível para uma consulta de Pediatria de Desenvolvimento, onde, no caso de se concluir por este diagnóstico, se irá traçar um programa de intervenção específico. Este envolve vários tipos de terapia (psicológica, de linguagem, ocupacional) e estratégias educativas. O tratamento pode também envolver psicofármacos em situações de agressividade, autodestruição ou convulsões. É fundamental a participação activa da família.

Qual a evolução destas situações?
O prognóstico do autismo tem vindo a melhorar. De acordo com estudos recentes, 5% a 10% destas crianças tornam-se adultos autónomos.

É importante relembrar que nesta doença há uma ampla variedade, quer na qualidade quer na gravidade das manifestações da doença e que cada caso é único e tem que ser abordado de modo individualizado.

Gabriela Marques Pereira

(Serviço de Pediatria do Hospital de Braga)

in educare

sábado, 13 de novembro de 2010

Autismo - Raun Kaufman

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Abuso Sexual

O que teria feito Violeta se os seus amigos não tivessem testemunhado a violência de que estava a ser alvo? Muito provavelmente calar-se-ia ou a mãe obrigá-la-ia a que se calasse porque era o violador quem garantia a subsistência da família.

"Sem Gonçalves e o rendimento da sua loja, a família de Violeta ficou na miséria em poucas semanas e todas as crianças foram obrigadas a ir trabalhar. Violeta tornou-se cortadora de pavios numa oficina logo a seguir à Rua dos Ingleses. Trabalhava do nascer ao pôr-do-sol no interior daquela fábrica cavernosa e todo o seu salário era entregue directamente à mãe, de modo que não tinha nem um real seu.
Os sábados e os domingos deveriam ser os seus dias de liberdade e luz, mas, como castigo pelas suas "mentiras", que tinham feito a família perder o seu protector, a mãe mantinha-a fechada em casa. Por vezes, chegava a acorrentar-lhe o tornozelo à cama (...)."

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo. Richard Zimler. D. Quixote.


Violeta, a personagem feminina a que se refere este extracto do livro de Richard Zimler, fora violada pelo tio, o Gonçalves. Quando tal foi descoberto por elementos exteriores à família, a situação de abuso foi cessada através do afastamento do agressor para bem longe. O problema é que, com a ausência do violador, a família caiu na miséria, tendo a vítima de abuso sexual, a Violeta, sido culpabilizada pela desgraça que sobre todos se abateu.


Quando há já algum tempo li esta história, fiquei a pensar nela durante muito tempo, mesmo tratando-se de ficção. Agora que uma situação provavelmente real me veio parar às mãos, a Violeta e a sua dupla pena voltou a assaltar-me os pensamentos.

No que se refere ao abuso sexual, tudo seria bem mais fácil se o abusador fosse alguém que não tivesse relação directa com a família. O problema é que, segundo os estudos, 40% das vítimas são abusadas por pessoas conhecidas ou próximas, 30% a 50% são-no por elementos da própria família e somente 10% a 30% são abusadas por desconhecidos. A habitual proximidade do agressor gera silêncio, que habitualmente se perpetua anos e anos a fio. O que teria feito Violeta se os seus amigos não tivessem testemunhado a violência de que estava a ser alvo? Muito provavelmente calar-se-ia ou a mãe obrigá-la-ia a que se calasse porque era o violador quem garantia a subsistência da família.


O drama associado a este tipo de violência, nomeadamente o incesto, é ainda mais grave, porque geralmente ocorre em famílias que apresentam comunicação pobre, afectividade negativa, isolamento e intimidação. Um aspecto que também é frequente nestes contextos familiares é o facto de a figura materna apresentar alguma(s) característica(s) que lhe dificulta(m) a protecção dos filhos (por exemplo, ser muito jovem, ter problemas de saúde física ou mental, ter problemas emocionais, usar drogas). Assim, a criança não vê na mãe um elemento que a possa proteger, até porque considera que se revelar algo sobre o abuso ela não vai acreditar. Nestas situações a vítima sente uma vergonha terrível, uma culpa imensa e uma solidão do tamanho do mundo. O problema é de tal forma grave que, tal como no caso da Violeta, pôr fim ao abuso sexual, se bem que inquestionavelmente necessário, não põe fim a feridas que se foram abrindo e não encontram forma de cicatrizar...


Quando um técnico é confrontado com esta realidade, sente que cada passo terá de ser dado com um cuidado extremo, pois mexer na pedra errada poderá significar o derrube de toda uma estrutura profundamente frágil...

Quando, perante a menina real a que me referi, lavada em lágrimas, a questionei sobre se não haveria algum adulto de referência a quem pudesse revelar o seu segredo, a sua resposta foi um aceno negativo com a cabeça. Percebi ainda melhor a dimensão da sua profunda dor e solidão.

Autora: Psicóloga Adriana Campos

in Educare

sábado, 6 de novembro de 2010

Susana Félix - O mesmo olhar


Susana Félix-canção da Associação Raríssimas
www.rarissimas.pt

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Recuperação parcial da visão através de chips oculares

Investigadores alemães, da Universidade de Tuebingen, em colaboração com a empresa Retina Implant devolveram a visão parcial a cegos através da instalação de chips oculares.

Segundo o artigo do jornal Proceedings of the Royal Society B, a investigação pressupõe a instalação de chips, ou implantes, na área da sub-retina. Os chips têm a função de converter a luz em impulsos eléctricos que são encaminhados para o nervo óptico, permitindo a devida interpretação pelo cérebro.

Os implantes foram testados 11 cegos, dois dos quais sofriam de rinitose pigmentar; os restantes padeciam de Coroideremia (ambas doenças têm origens hereditárias e levam à cegueira.

De acordo com a BBC, os resultados da investigação indicaram que a maioria dos pacientes implantados readquiriram a capacidade de identificar letras e objectos, ou ver as horas num relógio.

Apesar da tecnologia apenas permitir recuperar parte da visão, os estímulos visuais readquiridos podem ser bastante importantes para promover a orientação e o ganho de autonomia.