sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Abuso Sexual

O que teria feito Violeta se os seus amigos não tivessem testemunhado a violência de que estava a ser alvo? Muito provavelmente calar-se-ia ou a mãe obrigá-la-ia a que se calasse porque era o violador quem garantia a subsistência da família.

"Sem Gonçalves e o rendimento da sua loja, a família de Violeta ficou na miséria em poucas semanas e todas as crianças foram obrigadas a ir trabalhar. Violeta tornou-se cortadora de pavios numa oficina logo a seguir à Rua dos Ingleses. Trabalhava do nascer ao pôr-do-sol no interior daquela fábrica cavernosa e todo o seu salário era entregue directamente à mãe, de modo que não tinha nem um real seu.
Os sábados e os domingos deveriam ser os seus dias de liberdade e luz, mas, como castigo pelas suas "mentiras", que tinham feito a família perder o seu protector, a mãe mantinha-a fechada em casa. Por vezes, chegava a acorrentar-lhe o tornozelo à cama (...)."

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo. Richard Zimler. D. Quixote.


Violeta, a personagem feminina a que se refere este extracto do livro de Richard Zimler, fora violada pelo tio, o Gonçalves. Quando tal foi descoberto por elementos exteriores à família, a situação de abuso foi cessada através do afastamento do agressor para bem longe. O problema é que, com a ausência do violador, a família caiu na miséria, tendo a vítima de abuso sexual, a Violeta, sido culpabilizada pela desgraça que sobre todos se abateu.


Quando há já algum tempo li esta história, fiquei a pensar nela durante muito tempo, mesmo tratando-se de ficção. Agora que uma situação provavelmente real me veio parar às mãos, a Violeta e a sua dupla pena voltou a assaltar-me os pensamentos.

No que se refere ao abuso sexual, tudo seria bem mais fácil se o abusador fosse alguém que não tivesse relação directa com a família. O problema é que, segundo os estudos, 40% das vítimas são abusadas por pessoas conhecidas ou próximas, 30% a 50% são-no por elementos da própria família e somente 10% a 30% são abusadas por desconhecidos. A habitual proximidade do agressor gera silêncio, que habitualmente se perpetua anos e anos a fio. O que teria feito Violeta se os seus amigos não tivessem testemunhado a violência de que estava a ser alvo? Muito provavelmente calar-se-ia ou a mãe obrigá-la-ia a que se calasse porque era o violador quem garantia a subsistência da família.


O drama associado a este tipo de violência, nomeadamente o incesto, é ainda mais grave, porque geralmente ocorre em famílias que apresentam comunicação pobre, afectividade negativa, isolamento e intimidação. Um aspecto que também é frequente nestes contextos familiares é o facto de a figura materna apresentar alguma(s) característica(s) que lhe dificulta(m) a protecção dos filhos (por exemplo, ser muito jovem, ter problemas de saúde física ou mental, ter problemas emocionais, usar drogas). Assim, a criança não vê na mãe um elemento que a possa proteger, até porque considera que se revelar algo sobre o abuso ela não vai acreditar. Nestas situações a vítima sente uma vergonha terrível, uma culpa imensa e uma solidão do tamanho do mundo. O problema é de tal forma grave que, tal como no caso da Violeta, pôr fim ao abuso sexual, se bem que inquestionavelmente necessário, não põe fim a feridas que se foram abrindo e não encontram forma de cicatrizar...


Quando um técnico é confrontado com esta realidade, sente que cada passo terá de ser dado com um cuidado extremo, pois mexer na pedra errada poderá significar o derrube de toda uma estrutura profundamente frágil...

Quando, perante a menina real a que me referi, lavada em lágrimas, a questionei sobre se não haveria algum adulto de referência a quem pudesse revelar o seu segredo, a sua resposta foi um aceno negativo com a cabeça. Percebi ainda melhor a dimensão da sua profunda dor e solidão.

Autora: Psicóloga Adriana Campos

in Educare

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