sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Os Miúdos a Quem Dói a Alma

Nas últimas semanas tenho tido várias conversas com educadores e professores e, independentemente do pretexto para o seu início, os diálogos vão quase sempre parar aos prolemas que os miúdos, mais novos ou mais velhos, vão mostrando.
Os tempos estão difíceis e crispados para boa parte dos adultos, incluindo naturalmente os educadores, e para os miúdos a estrada também não está fácil de percorrer. 
Alguns vivem, sobrevivem, em ambientes familiares disfuncionais que comprometem o aconchego do porto de abrigo, afinal o que se espera de uma família. 
Alguns percebem, sentem, que o mundo deles não parece deste reino, o mundo deles é um bairro insustentável que, conforme as circunstâncias, é o inferno onde vive ou o paraíso onde se acolhe e se sente protegido. 
Alguns sentem que o amanhã está longe de mais e um projecto para a vida é apenas mantê-la. Alguns convencem-se que a escola não está feita para que nela caibam. 
Alguns sentem que podem fazer o que quiserem porque não têm nada a perder e muito menos acreditam no que têm a ganhar.
Alguns outros vivem em famílias em que aparentemente não (lhes) falta nada … a não ser o essencial, afecto, tempo, disponibilidade.
Alguns outros ainda vivem meio abandonados, quase entregues a si próprios mesmo no meio da família.
Alguns destes miúdos, sobretudo os mais novos, vão carregar para a escola uma dor de alma que sentem mas não entendem, por vezes. A escola também sente, naturalmente, dificuldade em ler e ajudar estas crianças, falta o tempo sobra o currículo, faltam os apoios sobra a burocracia, falta o tempo sobra uma eternidade na escola, etc.
Não, não tenho nenhuma visão idealizada dos miúdos, nem acho que tudo lhes deve ser permitido ou desculpado e também sei que alguns fazem coisas inaceitáveis e, portanto, não toleráveis.
Só estou a dizer que muitas vezes a alma dói tanto que a cabeça e o corpo se perdem e fogem para a frente atrás do nada que se esconde na adrenalina dos limites.
Espreitem a alma dos miúdos, sem medo, com vontade de perceber porque dói e surpreender-se-ão com a fragilidade e vulnerabilidade de alguns que se mascaram de heróis para uns ou bandidos para outros, procurando todos os dias enganar a dor da alma.

Texto de Zé Morgado

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