Queremos Melhores Pais!’, somos
assim tão maus... é um mote para uma manif de filhos?
Foi uma provocação (risos).
Incomoda-me que os pais se desperdicem tanto. Os pais têm a seu favor
variadíssimas coisas: têm um imenso bom senso, regra geral, e têm um sexto
sentido, absolutamente notável. Repare, há 40 diferentes tipos de choro, e uma
mãe não precisa de aulas de compensação para discernir por que é que o bebé
está a chorar. Este sexto sentido é o equipamento base da natureza humana. Além
disso, os pais tiveram uma infância. E por mais que a infância dos pais não
tenha sido cor-de-rosa, deu-lhes um conjunto de competências. Diz-se muitas
vezes que os pais não têm tempo, são maus pais. A ideia deste título
provocatório é dar-lhes um safanão e dizer-lhes ‘vejam bem o que são capazes!
Percam de vez o medo de errar, porque os bons pais para serem bons pais
precisam de fazer uma asneira de 8 em 8 horas’, enquanto não chegarem lá não
devem perder a esperança. (risos)
Mas os pais não têm medo de
traumatizar os filhos com os seus erros?
Pois têm, mas sabe, a psicanálise
trouxe para a opinião pública a noção de traumatismo mas não podemos perder de
vista que estávamos a falar nas crianças dos finais do século XIX, crianças
exploradas durante a Revolução Industrial, com famílias descuidadas, que viviam
todas num quarto, com falta de privacidade aos mais diversos níveis. Eram
crianças muitas vezes iniciadas sexualmente de forma absurda, precoce, e muitas
vezes por alguém da família, por isso quando se falou de traumatismo a questão
punha-se neste contexto.
O que os pais têm de perceber é
que não é possível crescer sem dor. Receio que muitos pais tenham crescido de
tal forma num mundo de autoritarismo, que de repente dizer ‘não’ a uma criança
é quase sinónimo de traumatismo. E é precisamente ao contrário. Às vezes, a função
de um técnico de saúde mental é dar uns safanões aos pais e dizer ‘deixem-se de
tolices, magoem um bocadinho se tiver de ser’. Se magoarmos as crianças dizendo
‘não’, são dores que nos empurram para a frente. Muitos pais querem tanto
proteger os filhos das dores, que fazem pior.
Confundimos mimo
com sobreproteção?
Sim, o mimo faz muito bem à saúde
e ninguém se estraga com mimo, muito pelo contrário. Já perdi a conta às
pessoas que por falta de mimo se estragam pela vida fora, o mimo faz melhor que
a vitamina do crescimento. Mas mimar não é dar a comida na boca dos filhos
quando têm 6 anos, não é adormecer os filhos todas as noites na cama dos pais,
não é levar a mochila até à porta da escola como se fossem mordomos... e não é
dizer ‘sim’ a tudo.
Fala muitas vezes de jardins de
infância tendencialmente gratuitos, de necessidade de bons recreios... Entre o
país que desejava ter e o país real vai uma grande diferença?
Enorme. É verdade que somos a
melhor civilização que existiu para as crianças, damos-lhes os cuidados e a
atenção que seguramente os nossos pais, por melhores que tenham sido, não nos
deram, e tenho até medo que em algumas circunstâncias sejamos um bocadinho
exagerados nos cuidados que temos com elas, como se de repente, em vez dos pais
serem a Entidade Reguladora das Crianças, elas parecessem a Entidade Reguladora
dos Pais. Mas, ainda assim, acho que falta muito para nós sermos um país amigo
das crianças. Há estudos que dizem que um filho pode custar, a um casal de
classe média, até 75 euros por dia, tendo em consideração tudo: educação,
vestuário, saúde, atividades extracurriculares... Por isso gostava que os
governantes e políticos explicassem aos cidadãos como é possível um casal ter
vários filhos até aos 6 anos, sendo os jardins de infância em Portugal mais
caros que as universidades privadas. Nunca houve uma perspetiva séria de darmos
às crianças a devida importância que elas têm. Só começaram a ser importantes
quando começaram a ser vistas como conta poupança reforma, quando se fez contas
ao sistema que sustenta a segurança social e se viu que, sem elas, entrava em
rotura.
E também não
somos um país amigo dos pais!
Não, de todo. Preocupa-me, por
exemplo, que não haja um código de direito do trabalho que preveja que as
consultas de obstetrícia devam ser tendencialmente obrigatórias para todos os
homens que estão a ser pais. Muitas entidades patronais funcionam ainda segundo
regras muito próximas da Revolução Industrial. Ainda não perceberam o óbvio,
que não é preciso trabalhar muito para se produzir mais, e não fazem aquilo que
muitas multinacionais fazem, que é perguntar aos seus novos empregados se têm
vida própria, vida familiar, valorizando esses aspetos, porque percebem que
essas pessoas que se dividem por mais desafios são pessoas mais competentes. Ou
seja, a relação com o trabalho é importante mas a relação amorosa ou com os
filhos é muito mais importante e, entretanto, as transformações sociais que são
feitas são contra as pessoas...
A necessidade de brincadeira é
outro dos seus cavalos de batalha...
A brincadeira das crianças é um
património da Humanidade. Brincar devia ser uma atividade obrigatória para
todas as crianças, todos os dias. Muitas crianças neste país têm uma agenda
laboral que vai para além do razoável. Faz agora anos que eu lancei com uns
amigos o Sindicato das Crianças, uma forma caricatural de chamar a atenção para
a importância de lutar pela semana de 40 horas para as crianças. Há crianças
que passam 55h por semana na escola, desde que abre até fechar, sem contar com
atividades extracurriculares e os trabalhos de casa.
O ranking das escolas foi
publicado recentemente, qual é a sua opinião?
Sou contra, e até para tentar ser
provocatório costumo dizer se querem rankings então levem isso às últimas
consequências. Devia haver nas escolas, logo à entrada de preferência, o
ranking dos alunos faladores, por exemplo (risos). Porque falar é um bem
precioso. E já agora peguem naquelas crianças a quem morreu o pai, ou que
tiveram um transplante ou passaram pelo divórcio dos pais e ponham-nas no quadro
de honra, porque elas merecem. Passaram por grandes dificuldades mas no ano
seguinte comeram a relva e fizeram um esforço terrível para ter um nível 3 ou
nível 4.
Mas vamos lá ver, eu não tenho
nada contra as crianças terem boas notas, isso é muito bom, mas também ter boas
notas como filho, porque já vi muitas crianças que têm boas notas mas depois
são de uma arrogância com os pais... as pessoas estão a dar importância única e
exclusivamente às notas das disciplinas e esquecem-se de tudo o resto.
E estamos a pôr todos os alunos no
mesmo saco, os privilegiados e os que nada têm, não será injusto?
Comparar escolas públicas com
privadas é batota, comparar escolas de meninos com pedigree com escolas do
interior onde não há aquecimento nas salas, em que os professores pagam o
material escolar, isto é uma maneira de andarmos a mentir uns aos outros.
Atualmente, se uma criança tirar uma negativa é um pecado, então errar também
não é aprender? Há tantas condicionantes no dia a dia, um mau professor, a vida
familiar que é de tal modo um inferno que não há cabeça para aprender as coisas
na escola...
Vemos os nossos filhos como um
reflexo do nosso sucesso... ou falhanço?
Mas isso é mau, eu costumo dizer
que nós começamos a ser pais ali por volta do terceiro filho, o primeiro é
sempre uma criança em perigo, porque se mistura a nossa história de vida,
porque se mistura os pais que nós tivemos, muitas das coisas que não gostámos
dos nossos pais, misturamos os nossos sonhos no sentido de construir um filho
tão perfeito que às vezes são mais os nossos enredos do que a singularidade do
nosso filho. No primeiro filho somos todos muito frágeis, ingénuos, e
suscetíveis a fazer erros... e precisamos de os fazer para conseguirmos ser
pais. Por isso é que os avós fazem um figurão, já fizeram tantas asneiras que
agora brilham facilmente. Tudo fica mais fácil quando os pais erram e percebem
que podem fazê-lo. Porque quando os pais erram de uma forma quase tímida e
querem ser tão perfeitos para os proteger e dar-lhes o sucesso que eles
próprios não tiveram, estão, sem se darem conta, a transformá-los num troféu...
muito mais do que criar as condições para que as crianças tenham uma vida de
acordo com os sonhos delas próprias.
E por isso há tantos pais a
‘estudar’ com os filhos, a fazer os TPC com eles?
Para já sou contra os TPC, eles já
estão muito tempo na escola e não vão aprender em casa o que não aprenderam na
escola. Se o TPC for ir ao supermercado aprender a fazer trocos, tudo bem, se
for 20-30 minutos tudo bem, mais do que isso nunca... E sempre com autonomia,
sozinhos, de outra forma estamos a dar a mensagem errada.
A crise económica não nos tornou
piores pais? Discutimos mais, perdemos as estribeiras mais facilmente, andamos
preocupados stressados...
Sim, claro sim, mas, eu peço
desculpa pelo que vou dizer, é quase humor negro, mas acho que há um lado bom
na crise, porque vai tirar megalomania onde ela antes existia, a euforia era
tão grande, tudo parecia ter um preço. A crise vai criar sofrimento nas
famílias, é certo, mas vai ajudar-nos a perceber se temos ou não temos família
e a impor a verdade nas relações. E pode trazer a noção às crianças de que
viver não é fácil, e não é no sentido trágico do termo, é aprender a resolver
problemas.
Qual é o melhor presente de natal
que se pode dar a uma criança?
O pai ou a mãe adivinharem os seus
sonhos sem que elas precisem de escrever ao pai natal. Aqui entre nós, vale
para as crianças como para os pais. As crianças escrevem ao pai natal porque é
uma forma de dizer aos pais ‘orientem-se’, e os pais gostam de ver o
brilhozinho nos olhos porque gostam de dar os presentes que eles gostariam de
ter quando eram pequenos. Mas os crescidos não escrevem ao pai natal mas estão
sempre a espera que os outros adivinhem aquilo que querem ter ou sonham.
O que ainda o
surpreende?
A maneira comovente como os filhos
e os pais estão à espera de se surpreenderem uns aos outros. Pais, que são
crianças crescidas, e que às vezes parecem ter uma parede de vidro a impedir os
seus bons gestos de pais. Isto é absolutamente comovente, por mais kms que eu
tenha disto, continua a surpreender-me todos os dias.